Autor: Roni Moreira

  • Tempo de viver em comunidade

    Tempo de viver em comunidade

    Virtual Teológico

    Tempo de amar a palavra

    “Quando as Tuas palavras foram encontradas, eu as comi; elas são a minha alegria e o meu júbilo, pois pertenço a Ti, Senhor Deus dos Exércitos.”
    Jeremias 15:16

    Houve um tempo em que as intenções do inimigo se concentravam em destruir literalmente a Palavra. Hoje, o foco mudou e se destina mais a destruir o amor à Palavra de Deus.
    De fato, termos Bíblia sem ela nos ter de nada servirá.
    O Livro de Deus tem perdido o protagonismo até mesmo no Ministério. Gostamos do título “Ministros da Palavra”, mas me pergunto até que ponto ela de fato ministra a nós…
    No verso acima, Jeremias fala do seu anseio pela Palavra. Se tal anseio não predomina em nosso coração, vivemos um ministério falido, pois qualquer distância que mantivermos da Bíblia dará início a um processo de morte espiritual.
    No tempo do fim, não deixe ter fim seu amor pela Palavra – tome-a agora mesmo em sua mão e renove seu compromisso de passar tempo com ela, de se submeter a ela, de devolver a ela o centro da governança de sua vida.
    Um Ministério sem as Escrituras é uma fraude perigosa. O que a Bíblia é para você: Uma coadjuvante que sempre aparece, mas não é importante? Um figurante que mal aparece, e quando aparece não é notado? Ou a protagonista de sua vida como um todo?
    A Bíblia é preciosa e, sem dúvidas, ainda relevante. O desprezo atual por ela, até mesmo no Ministério, se dá devido à geração atual não suportar ser confrontada.

    “Eduque sua mente a amar a Bíblia, amar a reunião de oração, a hora de meditação e, acima de tudo, a hora em que a mente comunga com Deus. Volte sua mente para as coisas eternas, se quiser unir-se com o coro celestial nas mansões de cima.” — (CI 190.2 – EGW).

    Autor Pr. Paulo Ki

    Compartilhe nas suas redes sociais

  • Tempo de reconhecer o tempo

    Tempo de reconhecer o tempo

    Virtual Teológico

    Tempo de reconhecer o tempo

    “E digo isto a vós outros que conheceis o tempo…”
    Romanos 13:11

    Paulo sabia haver um grupo privilegiado em Roma que conhecia o tempo, que não estava alheio aos acontecimentos proféticos que se desnudavam diante dos olhos.
    Fico imaginando a percepção de Paulo diante do ministério. Creio que, na opinião dele, ninguém deveria conhecer melhor os “tempos” do que o Ministro.
    Conhecer o tempo vai além de poder enumerar os sinais escatológicos ou de saber citar de cabeça textos que fortaleçam os nossos fundamentos. Tem a ver também com espírito de alerta. Precisamos mergulhar no conhecimento das profecias, mas sempre tendo em mente que acumular conhecimento sem transformação do coração é só um meio de se perder de forma mais erudita. Precisamos conhecer e estremecer diante do tempo. Poder explicá-lo, mas também viver de forma que glorifique a Deus nesta época solene.
    Hoje estamos sofrendo duplamente com um conhecimento superficial e um compromisso menor ainda.
    O conhecimento do tempo deve ser acompanhado de uma submissão de coração que desague em uma entrega irrestrita à obra de Cristo.
    Temo que não conheçamos nem o tempo nem o Senhor do tempo. Mas ainda há tempo de conhecer o tempo – apenas escolha.

    “Paulo ensina ser pecaminoso mostrar-se indiferente aos sinais que devem preceder à segunda vinda de Cristo. Aos culpados dessa negligência chama ele filhos da noite e das trevas. Ao vigilante e atento anima ele com estas palavras: “Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão. Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas. Não durmamos pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios”. 1 Tessalonicenses 5:4-6. – (AA 144.1- Ellen White)

    Autor Pr. Paulo Ki e eu compartilho com vocês

    Compartilhe nas suas redes sociais

  • Os 4 seres viventes de Apocalipse 4

    Os 4 seres viventes de Apocalipse 4

    Os quatro seres viventes: Alusão de Apocalipse 4.6 a Ezequiel 1.5

    • INTRODUÇÃO: A natureza do Apocalipse

    Não há outro livro igual ao Apocalipse em sua essência e uso pois ele trabalha como o fechamento de todo o cânon bíblico. Podemos dizer que se configura um resumo de toda a Bíblia e seu conteúdo é como um arremate de um tecido bem feito, é o clímax da revelação de Deus para sua igreja no passado, presente e futuro é também “a revelação, o desvendamento, a exposição da verdadeira Pessoa de Jesus em toda a majestade da Sua pessoa e toda a glória da Sua obra. Este livro é o clímax de todas as magnificentes verdades encontradas nas outras partes da Bíblia” (GUILHERME, 1997, p. 74). Muito se discute sobre sua natureza por se tratar de uma mensagem que exige estudo e cautela para que o estudante encontre a interpretação exata do seu conteúdo. Entender esse conceito poderá contribuir com o leitor em sua busca porque  “a literatura apocalíptica trata da escatologia (ἔσχατος, eschatos, “últimas coisas”). Esse tipo de escrita foi especialmente predominante, de aproximadamente 200 a.C. a d.C. 200, começando com os escritos judaicos e, eventualmente, incluindo a obra dos cristãos.’’ (NEAL, 2020). Então, compreender sua natureza e propósito dará ao leitor a possibilidade de entender sua mensagem que é apresentada logo no início,  porque,

    “O Apocalipse de João, nos seus dois primeiros versos, daria, como paradigma, os quatro pontos da estrutura típica desse gênero: uma revelação que é dada por Deus; a transmissão se dá por um mediador; o receptor é um visionário; os temas tratados dizem respeito a eventos futuros. Seu marco social também é tomado do livro do Apocalipse, em 1,19: esclarecer aos eleitos aquilo que ainda há de acontecer, servindo então de coragem e conforto numa época de opressão, com o intuito de manter a fidelidade deles” (HANSON, 1976, p. 27). 

    Segundo Rotz (2015) “o Apocalipse é em primeiro lugar e princi­palmente uma mensagem à Igreja, à noiva’’. O mesmo autor diz que o livro requer estudo criterioso que usa seriamente o universo simbólico e a história dramática sem ceder a uma rejeição das imagens difíceis ou literalismo. 

    Muito se tem discutido sobre o gênero e o estilo do livro do Apocalipse, e podemos destacar que essa discordância não impede que bons pesquisadores encontrem o sentido hermenêutico correto. Carson (1997) diz que este livro é muito parecido com uma carta, mas em sua forma geral e introdução, é um livro apocalíptico. João faz uso extensivo do simbolismo para transmitir sua mensagem apocalíptica, ele não está preso ao fio comum do gênero apocalíptico, distinguindo assim sua obra de outras obras apocalípticas existentes.

    • O que é uma alusão

    É comum encontrarmos textos na Bíblia que fazem referência a outros textos, autores citando outros autores, isso ocorre com frequência. Muitas dessas expressões são chamadas de ‘’alusões’’, as mesmas são usadas para dar força ao argumento do próprio autor. Essas referências ou boa parte delas são retiradas do Antigo Testamento e também ocorrem com alguma força no Novo Testamento, mas como definimos uma alusão?  De acordo com Beale (2003), pode-se definir “alusão” como uma expressão breve deliberadamente pretendida pelo autor para ser dependente de uma passagem do AT. Diferentemente de uma citação do AT, que é uma referência direta, a alusão é indireta (a redação do AT não é reproduzida diretamente como na citação)”. A alusão é uma referência indireta, praticamente certa ou provável, embora não tão material quanto a citação explícita. Em outras palavras, para se identificar uma alusão, é necessário atestar a existência de “um paralelo incomparável ou único de redação, sintaxe, conceito ou conjunto de motivos na mesma ordem ou estrutura. Quando se encontram tanto uma redação (coerência vocabular) quanto temas singulares, a alusão proposta ganha maior probabilidade” (BEALE, 2013, p. 56). Sendo que o Apocalipse não faz citação ao AT, dar atenção a alusões torna-se importante e eficaz para sua correta interpretação, como veremos mais adiante.

    • Quantas alusões há no livro do Apocalipse

    Há um número considerável de alusões no livro. Embora possam existir várias opiniões sobre um valor exato. “No Livro do Apocalipse, por exemplo, em que não há citações formais, o número das alusões varia de 394 (UBS3) a 635 (NA26), chegando a 1.000”. (BEALE, 2003, p.55). Mostrando que João além de ser conhecedor dos escritos do AT, faz uso desse recurso para discorrer sobre os assuntos que propõe escrever, o que torna muito comum seu uso por boa parte dos autores bíblicos.  Notamos que há várias propostas quanto ao número de alusões no livro e para tanto não chegaremos a um consenso aqui, porém voltamos a destacar que elas existem e são importantes para compreensão da mensagem apocalíptica.

    • Exemplos de alusão

    Reid (2007) diz que as alusões são em grande quantidade no Apocalipse  e que o livro não tem nenhuma citação direta do AT. Mais um motivo lógico de que entender o processo de alusão é a chave fundamental para interpretação das palavras de João e torna-se assim um dos requisitos para quem deseja aprofundar-se em seu conteúdo. Vamos tomar como exemplo o texto de Isaías 65:17-25 onde o mesmo autor diz que

    “[…] não é ainda a descrição dos novos céus e da nova terra, conforme encontrado em Apocalipse 21-22. Em Isaías 65:20, a morte ainda está presente. Veja também Isaías 65:23 e 66:23-24. Isto é uma profecia condicional para Israel, apontando para uma condição quase ideal que nunca se cumpriu em uma escala local, mas que aguarda o cumprimento final em uma escala universal conforme se encontra em Apocalipse 21-22.’’ (REID, 2007. p.118).

    Outro exemplo é o cenário de Apocalipse 4.1-11 e Ezequiel 1.1-10 onde ambos os profetas recebem uma visão de uma cena impressionante, incomum ao pensamento humano, descrevendo em detalhes o que viram e este será o assunto de análise doravante.

    Quando colocamos os textos de Apocalipse e Ezequiel em paralelo notamos uma variedade de palavras e expressões semelhantes, os autores usam praticamente a mesma estrutura para discorrer o assunto apresentado, veja o quadro comparativo abaixo e note as semelhanças dos termos encontrados nas duas passagens.

    • Paralelo temático
     

    APOCALIPSE 4.1-8

    EZEQUIEL 1.1-14

    Termos e palavras semelhantes

    • céu, 
    • aberta,
    • dizendo,
    • achei-me em espírito,
    • relâmpagos, 
    • quatro seres viventes, 
    • o rosto como de homem, 
    • semelhante a leão, 
    • semelhante a novilho,
    • semelhante à águia
    • Do trono saem relâmpagos
    • céus, 
    • abriram, 
    • palavra do Senhor, 
    • a mão do SENHOR, 
    • relâmpagos, 
    • quatro seres viventes, 
    • seus rostos era como o de homem, 
    • rosto de leão, 
    • rosto de boi,
    • rosto de águia 
    • dele saíam relâmpagos

    Em ambas as passagens encontramos a mesma descrição do que os profetas viram, dando indício de uma clara alusão, exceto quando falam das asas dos seres viventes, João diz que os seres tinham quatro asas e Ezequiel menciona seis asas (Ap 4.8, Ez 1.6).  É basicamente neste ponto do Apocalipse que começam as visões, nas quais são mostradas, sob figuras, as forças pelas quais a vida da igreja é afetada, porém vamos nos deter de agora em diante em Ap. 4.6, passagem esta que João usa para aludir  em Ez. 1.5.

    • Paralelo verbal

    Existem três palavras hebraicas da qual advém o termo que a Septuaginta traduz como ζῷον: seres viventes conforme mostrado no gráfico abaixo:

    A tradução, então, seria de ζῷον (zoon): animal, ser vivo e a mais aceitável é criatura (sobrenatural) — um ser sobrenatural compreendido segundo as características dos seres vivos. Passagens relacionadas que falam de  “criaturas vivas”.

              Ap. 4.6  τέσσαρα ζῷα

              Ap. 5.6  τῶν τεσσάρων ζῴων καὶ

              Ap. 5.8  τὰ τέσσαρα ζῷα καὶ οἱ εἴκοσι τέσσαρες

              Ap. 6.1  καὶ ἤκουσα ἑνὸς ἐκ τῶν τεσσάρων ζῴων

              Ap. 6.5  τοῦ τρίτου ζῴου λέγοντος·

    Referências da Septuaginta: Gn 1.21; Sl 67.11; Sl 103.25; Jó 38.14; Sb 7.20; Sb 11.15; Hc 3.2; Ez 1.13–15; Ez 47.9 e também a passagem de estudo deste artigo, Ez 1.5. Esta tem sua raiz no verbo grego ζάω (zao): viver com o equivalente na palavra hebraica חַיָּה (ḥǎy·yā(h)) que a LXX traduz por ζῶά: exército, habitação em Salmos 67.11 como mostrado no gráfico acima, nos dando uma sugestão de que estes seres são do exército do Senhor e que sua habitação é ao redor do trono onde adoram e servem a Deus, porém isto pode não fazer sentido porque ḥǎy·yā(h) (חַיָּה) também é traduzido pela LXX como animais, feras e seres, e o mesmo substantivo tem sua raiz no verbo חָיָה (chayah) traduzido como estar vivo, viver, portanto o que Ezequiel viu em sua visão, e o mesmo podemos dizer de João foi os “seres viventes”, estranhos e de aparência incomum, e no caso de Ezequiel, nunca vistos antes, que adoravam a Deus ao redor do seu trono.  É importante destacar a ocorrência ζῷον feita pela LXX  em Ez. 1.5 comprova a alusão feita por João, pois o paralelo entre uma palavra e outra é o mesmo como já comentado neste artigo.

    • A alusão (Ap. 4.6 – Ez. 1.5)

    As quatro criaturas vivas que tinham muitos olhos “antes e atrás” (Ap. 4.6) têm uma sugestão de algo que se aproxima da onisciência, mas o fato de serem criaturas limita isso. A visão de Ezequiel 1 é tão semelhante a esta que podemos afirmar e aceitar o que é revelado ali como tendo a mesma aplicação na visão de João, evidentemente uma alusão a mesma. Por algum tempo, ao que parece, Ezequiel se perguntou o que eram as criaturas vivas; mas em uma visão posterior foi lhe dando a interpretação do mistério. Então ele disse: “São estes os seres viventes que vi debaixo do Deus de Israel, junto ao rio Quebar, e fiquei sabendo que eram querubins” (Ez. 10.20)

    Podemos seguramente deixar de lado, portanto, algumas interpretações antigas que dizem ser estes como os quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João segundo o pensamento de Santo Irineu ou os quatro principais signos do Zodíaco, como alguns, a mencionam. Não há praticamente nada que possa ser totalmente conhecido sobre esses seres vivos que estão na presença de Deus. A descrição de João do que ele viu nesta visão do trono de Deus não é uma representação fotográfica, mas uma visão que tinha a intenção de impressionar, como foi no Sinai ao pronunciar Deus sua Lei a Israel, evidenciando que Ele, assim como na cena mostrada a João, se apresenta de uma forma espetacular. Nas duas visões a cenário apresentado está no contexto de adoração, embora Ezequiel não tenha mencionado o trono no começo de sua visão, João vê e escreve sobre ele logo no início dando ênfase na adoração cósmica manifesta, que consiste no panorama universal do trono e a sua volta, as criaturas e posteriormente no capítulo, os vinte quatro anciãos que também se prostram e adoram aquele que está sentado no trono.

    Ezequiel, ao receber a visão, contempla apenas vestígios do que realmente iria acontecer quando o Cordeiro se levantaria para abrir os selos mostrados na sequência do capítulo 4 de Apocalipse, é por esse motivo que João faz alusão aos seres viventes mencionados no AT, porém com detalhes não mencionados anteriormente onde se diz, por exemplo, que: 

    “E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir” (Ap. 4.8). 

    Conforme lemos em Ap 4.8 estes seres, adoram a Deus dando-lhe glórias pelo que Ele foi e é, proclamando a sua vinda, um grande quadro de adoração observado também na visão de Ezequiel retratando o mesmo panorama. Devemos lembrar que as visões não são apresentadas a eles como realmente são, porque segundo o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia ”os quatro seres viventes não representam criaturas aladas reais com as características animais citadas” (DORNELES, 2014)  e nem Jesus, segundo Timm (2022), tem a forma de um cordeiro que tenha sido morto. Concluímos que, as visões tinham o objetivo de causar grande admiração, tanto que Ezequiel ficou muito impressionado (veja Ez. 4.18, 4.22) com a aparência delas.  Allison diz que:

    “A descrição em Apocalipse 4 e 5 é de uma cena celestial (4:1); o lugar é o santuário celestial. Encontra-se ali o trono de Deus (4:2); existem sete lâmpadas (4:5); mencionam-se taças de ouro cheias de incenso (5:8); e o Cordeiro está presente (5:6). […] Um dos propósitos dessa visão é derramar luz sobre a entronização de Cristo como rei e sumo sacerdote no santuário celestial”.

    Cristo entrou ali para cumprir seu ministério de restauração e de onde irá declarar “Tudo está feito […]” (Ap. 21.6). O mesmo não ocorre com Ezequiel, que vê os seres e os descreve. Visivelmente não há escatologia na visão, tanto que no final de toda sequência das cenas Deus lhe dá uma missão local (Ez. 2.3), porém para João é dado conhecer a missão escatológica do Cordeiro, o único digno de abrir os selos (Veja Ap. 5.1 e 5, Ez. 2.9-10) e de ser adorado, como mostrado subsequentemente no seu relato, tanto que Osborne comenta que esse título de Cordeiro, ”[…] se volta totalmente para a grandiosa vitória escatológica de Cristo como cordeiro pascal sobre a cruz. […] Ele vence, porém, por meio do autossacrifício, por ser o Cordeiro que foi morto, recebendo a adoração dos seres viventes e dos anciãos” (OSBORNE, 2014, p. 39). Note que ”os quatro seres viventes aparecem repetidamente no cenário celestial […] Estão constantemente ocupados na adoração e louvor a Deus” (4:8; 5:8; 5:14; 7:11; 19:4) (BARCLAY, 2015, p.186), nos fazendo entender que papel e propósito desempenham. Os mesmos também faziam parte da decoração do templo de Salomão nas paredes e nos lugares de oração, sugerindo serem símbolos de  adoração e louvor a Deus. Em ambas as visões, especialmente em Apocalipse, é observado o maior exemplo de adoração cósmica, que atinge seu auge em Ap 4.7 e a nota tônica é; Deus está assentado no trono e tanto querubins, como todos, devem prostrar-se e adorá-Lo.  Estes seres, ”são parte da cena e do imaginário celestiais. Não são representações que o autor do Apocalipse tenha inventado” (BARCLAY, 2015, p. 187), portanto, é uma clara alusão que João faz à cena de adoração em Ezequiel, com acréscimo de detalhes relacionados ao tempo do fim. 

    Referências:

    GUILHERME, W. Orr. 66 Chaves para a Bíblia: Um Manual Prático para Estudo Bíblico, Primeira edição. São Paulo: Ebr Editora Batista Regular, 1997.

    NEAL, D. A. Apocalyptic Literature, Introduction to. In J. D. Barry (Org.), Dicionário Bíblico Lexham. Bellingham, WA: Lexham Press, 2020.

    HANSON, Paul D. Apocalypse, genre; Apocalypticism. In: CRIM, Keith (Ed.). The interpreter’s dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon Press, 1976. 

    CARSON, D.A., Douglas J. Moo e Leon Morris. Introdução ao novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. 

    Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

    ROTZ, Carol. Novo Comentário Bíblico Beacon: Apocalipse. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2015.

    DEDEREN, Raoul. Tratado de Teologia. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

    BEALE, G. K. Manual do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento: Exegese e interpretação. São Paulo: Vida Nova, 2003.

    REID, George W. Compreendendo as Escrituras. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2007.

    BRANNAN, Rick. Léxico Lexham do Novo Testamento Grego. Bellingham, WA: Lexham Press, 2020.

    TIMM, Alberto R. Lição da Escola Sabatina: Vida, Morte e Eternidade. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022.

    DORNELES, Vanderlei. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v.7. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014, p. 861.

    BARCLAY, William. Apocalipse: O Novo Testamento Comentado por William Barclay.  Tradução: Carlos Biagini, p. 186-187.

    É bacharel em Teologia pela Faculdade Adventista do Paraná, além de formação em Desenvolvimento Web e Design Gráfico, adquirida nas escolas Udemy Academy e Stand By. Também é especialista em Marketing Digital pelo Núcleo Expert FNO. Atualmente, atua como Colportor de Carreira na Associação Pernambucana da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) em Recife, PE. Além disso, está cursando um MBA em Gestão de Projetos.

    Botões de Compartilhamento Flutuantes
  • Porque a cruz foi necessária

    Porque a cruz foi necessária

    Virtual Teológico

    Porque a cruz foi necessária

    A Cruz é necessária, isso foi revelado quando a humanidade caiu em pecado e Deus motivado pelo seu infinito amor  deu tudo para assegurar um meio de restaurar a conexão com a criatura desobediente. Por sua decisão, tornou possível ao homem encontrar o caminho de volta de onde nunca deveria ter saído. Logo, isso não é obra humana e sim Dele porque “[…] é Deus quem salva. Repetidamente no Antigo Testamento lemos Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, e no Novo Testamento afirma-se explicitamente que a salvação não vem de nós, mas é dom de Deus” (BARKER, 2017, p. 716).

    Para  entendermos a necessidade da Cruz faz-se necessário analisar alguns aspectos do pecado, sendo o mesmo um dos motivos da elaboração do plano da Salvação. Sabemos que a essência do pecado se constitui para nós um mistério não revelado, no entanto, conhecemos seus resultados pois o experimentamos em nossa vida. Barker (2017) diz que o pecado é o grande distúrbio que interrompeu o trabalho de Deus, e a salvação é a superação da alienação, interrupção, reconstrução e transformação de todas as realidades afetadas pelas forças do mal. Vemos no comentário do autor conclusões que se configuram dois aspectos do pecado e mostram o que ele causou a nós, são eles: interrupção e alienação. Ambos causaram a separação do homem de Deus. Primeiro a interrupção, onde foi interrompido o plano original do céu para com o homem recém criado. O resultado dessa interrupção levou o homem a alienação, porque brotou nele a tendência natural de fugir da presença do Senhor e o próprio ato pecaminoso do homem em si criou um abismo entre ele e Deus,  impossível de ser transposto. Podemos dizer que esses aspectos, embora insuficientes, são devastadores pois sugerem uma situação irremediável. O homem estava condenado pela santa lei de Deus e sobre ele pairava  a certeza sombria de sua morte certa. “O  Céu encheu-se de tristeza quando se compreendeu que o homem estava perdido, que o mundo que Deus criara deveria encher-se de mortais condenados à miséria, enfermidade e morte, e não haveria um meio de livramento para o transgressor”. (WHITE, 2010, p. 146). 

    Satanás havia conquistado seu objetivo ao levar o homem à desobediência e sua hoste exultou por saber que ele havia entregue o domínio do mundo em suas mãos. Deus, aparentemente estava numa situação delicada e  restavam poucas alternativas. Poderia Ele cumprir sua palavra e destruir o casal e satisfazer os reclamos de Sua santa lei ou desistir de condená-los à morte e restaurar o favor que haviam perdido por desobedecer. Podemos pensar que a decisão mais sensata seria cumprir com o que havia  dito, levar o homem à morte eterna e manter seu padrão moral satisfazendo sua característica de não tolerar o pecado. Se Deus tivesse tomado qualquer uma dessas decisões, Satanás estaria certo de que havia ganho a controvérsia, porque em ambos os casos ele acharia razão para acusá-lo.  Em suma, se Deus restaura o favor do homem voltando atrás a Sua palavra teria sido acusado de mentiroso e se houvesse  destruído o homem teria sido acusado de injusto. Como Ele poderia agir sem manchar sua integridade? White (2010, p. 149) comenta:

    Vi o adorável Jesus e contemplei uma expressão de simpatia e tristeza em Seu rosto. Logo eu O vi aproximar-Se da luz extraordinariamente brilhante que cercava o Pai. Disse meu anjo assistente: Ele está em conversa íntima com o Pai. A ansiedade dos anjos parecia ser intensa, enquanto Jesus Se comunicava com Seu Pai. Três vezes foi encerrado pela luz gloriosa que havia em redor do Pai; na terceira vez, Ele veio de Seu Pai, e podia ser visto. Seu semblante estava calmo, livre de toda perplexidade e inquietação, e resplandecia de benevolência e amabilidade, tais como não podem exprimir as palavras. Fez então saber ao exército angelical que um meio de livramento fora estabelecido para o homem perdido. Dissera-lhes que estivera a pleitear com Seu Pai, oferecera-Se para dar Sua vida como resgate e tomar sobre Si a sentença de morte, a fim de que por meio dEle o homem pudesse encontrar perdão; que, pelos méritos de Seu sangue, e obediência à lei divina, ele poderia ter o favor de Deus, e ser trazido para o belo jardim e comer do fruto da árvore da vida. 

    A mesma autora comenta que na cruz a justiça e misericórdia se uniram. Contemplando a cena Paulo escreve: “a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. (2Co 5.19) e Barker (2007) complementa, Deus estava superando e reconstruindo as realidades desastrosas que o mal havia causado. “A Escritura ensina que, conforme o plano de Deus, Cristo teve de sofrer, morrer e ressuscitar dos mortos. Ela expressa a necessidade divina na expressão “ter de“. (KISTEMAKER, 2016, p. 157).

    Deus o Pai superou todas as expectativas quando entregou  seu Filho a morte em lugar do homem. Entrou em concílio com o Filho e ambos decidem revelar as suas criaturas o que haveria de fazer para solucionar o problema e ao invés de horror pelo que teria de enfrentar, o coração de Cristo se encheu de alegria, regozijo e esperança pois sabia que haveria de trazer de volta suas amadas criaturas ao favor divino. Satanás nunca poderia imaginar tamanho altruísmo e desprendimento porque nem ele mesmo sabia o que era abnegação e serviço por ser egoísta e desconsiderado, características que causaram sua ruína. 

    “O homem, por sua apostasia, havendo perdido o direito ao favor divino, perdeu também a imagem divina e, envolvido em pecado e miséria, teria perecido nesse estado não houvera Deus providenciado um plano de salvação”. (HODGE, 2001, p. 748). Deus não só superou, mas também estava construindo uma ponte que iria restaurar o acesso do homem a Ele. A cruz que Cristo suportou não só construiu, mas também possibilitou ao homem ser restaurado a imagem divina e de seu estado de decadência para o estado de santo às vistas de Deus. Como se vê, isso é dom de Deus enviado do céu aos homens e nada do que ele possa fazer terá alguma contribuição neste processo, “a salvação tem origem em Deus e não no homem. Apesar de Paulo exortar os Filipenses a desenvolverem sua salvação com temor e tremor, ele contudo acrescenta que Deus trabalha por intermédio deles para realizar o seu propósito”. (Fp 2.12–13) (KISTEMAKER, 2016, p. 157).

    A esta altura já podemos imaginar porque foi tão grande a condescendência de Deus ao dar seu Filho Unigênito para morrer como oferta pelos pecados da humanidade. Nosso criador agiu como um pai que conhecendo a situação de saúde critica de seu filho ainda no ventre é dado a ele a opção de abortar a criança porque ao nascer viverá o resto da vida vegetando numa situação miserável, mas ao pensamento de que irá, pelo oborto, ficar separado do seu filho decide deixá-lo nascer e seu amor se mostra maior do que  o problema de saúde do filho, problema este que o impedirá de ser o que pai gostaria. Assim agiu Deus quando permitiu que o homem viesse a existência, mesmo em sua onisciência saber que o projeto fracassaria, foi permitido a nós existirmos, pelo o que João diz “nos amamos porque ele nos amou primeiro” e desde dos tempos eternos já havia elaborado seu plano de resgate, de cura da doença do pecado que um dia surgiria no universo. “A história do grande conflito entre o bem e o mal, desde o tempo em que a princípio se iniciou no Céu até o final da rebelião e extirpação total do pecado, é também uma demonstração do imutável amor de Deus”. (WHITE, 2015, p.33). Bancroft diz que: 

    É razoável acreditar-se que a morte de Cristo era necessária, pois doutro modo Deus Pai jamais teria sujeitado Seu Filho muito amado ao tremendo suplício da Cruz. Pois, se o Filho veio em resposta a um apaixonado amor remidor, veio, igualmente, em obediência filia, pois foi enviado pelo Pai, que preparou para Ele um corpo para Seu sacrifício sacerdotal (Hb 10:5–9). O próprio Jesus Cristo refere-se à Sua morte como necessidade. Diz Ele: E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. (Jo 3:14, 15).

    Por  isso podemos dizer que a Cruz foi necessária porque foi o momento oportuno de Deus provar seu amor e que sempre esteve certo. Mostrar que sua lei pode ser guardada e traz liberdade a todas as criaturas do universo. Aproveitar esse momento não foi nada fácil para o Deus do céu que doou tudo e não reteve nada porque assim era necessário “a morte de Cristo sobre a cruz garantiu a destruição daquele que tem o poder da morte, o qual foi o originador do pecado. Quando Satanás for destruído, não haverá ninguém para tentar para o mal; a expiação jamais precisará ser repetida; e nenhum perigo haverá de outra rebelião no universo de Deus”. (WHITE, 1989) a mesma autora escreve que é conveniente que Aquele que criou todas as coisas, salvasse os pecadores pelo sangue do Cordeiro.

    “Embora imensurável pela mente finita, ambas, a razão e a revelação, asseveram que a penalidade pelo pecado não é mais do que aquilo que a santidade de Deus exige. Ela é a expressa autoridade judicial de Deus. É aquilo que Cristo satisfez”. (CHAFER, 2013, p.129-130).

    Por fim, é interessante reafirmarmos que a cruz sempre esteve nos planos de Deus e Ele decidiu pagar o preço da liberdade concedida a suas criaturas. Sua decisão custou tudo que o céu tinha de mais precioso e puro. “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”. (Jo 15.13)

  • O Batismo de crianças na teologia de Santo Agostinho

    O Batismo de crianças na teologia de Santo Agostinho

    Virtual Teológico

    O Batismo de crianças na teologia de Santo Agostinho

    I . INTRODUÇÃO

    Segundo o dicionário Oxford Languages, batismo é o primeiro sacramento do cristianismo, que apaga o pecado original de quem o recebe e a este confere o caráter de cristão, porém para os primeiros cristãos representava muito mais do que cancelamento de pecados e sim o começo de uma nova vida com Cristo. Paulo acrescenta que ”de sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6:4). Esta afirmação bíblica nos dá uma ideia do que Paulo, e por fim os cristãos da época, pensavam sobre o assunto e seu enfoque principal está na vida nova que o converso adota para si e deve procurar manter esse foco para crescer em graça diante de Deus, ”porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (Rm 6.25).

    É muito importante entender tais conceitos, portanto, falaremos neste artigo do surgimento da cerimônia e por que foi praticada e estabelecida como doutrina, a partir disso buscaremos entender as várias interpretações posteriores que surgiram ao longo do tempo, em especial o pensamento de Santo Agostinho sobre o tema e procurar entender, porque ele apoiava a ideia de que as crianças recém-nascidas precisam passar pela cerimônia.

    II. COMO SURGIU A BATISMO NA IGREJA PRIMITIVA

    Logo no começo do evangelho de Mateus, precisamente no capítulo 3 encontramos a perícope narrando o batismo de Jesus, porém vamos nos deter no trecho que fala a respeito de João Batista. O texto em questão diz o seguinte: ”Então ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão; E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mt 3.5-6). Note que João aparece (versículo 1) pregando no deserto da judeia e sua mensagem principal era o arrependimento dos pecados, palavra que pelo visto chamou muita atenção porque ia ter com ele Jerusalém, Judéia e todas as províncias situadas perto do Jordão, mostrando que sua mensagem tinha grande efeito (versículo 6). Agora estava acontecendo um dos eventos que iria marcar a história do cristianismo posteriormente, pode se dizer que essa foi a primeira vez que a bíblia menciona a cerimônia, e até mesmo a palavra batismo, mas de onde surgiu essa ideia de que era necessário batizar? Autores como Alisson comentam que,

    “Na igreja primitiva, os apóstolos seguiram o exemplo de seu Senhor para interpretar a Bíblia hebraica. Jesus havia empregado a tipologia, método que sublinhava a correspondência entre o que havia acontecido no Antigo Testamento (chamado tipo) e alguma coisa em sua própria época (chamada antitipo). De modo parecido, os autores do Novo Testamento usaram a tipologia. Assim, Adão é um tipo de Jesus Cristo, e ambos representam toda a humanidade (Rm 5.12-21). O dilúvio de Noé corresponde ao batismo cristão, em uma representação da salvação do julgamento divino (I Pe 3.18-22). (ALISSON, 2107, p. 194).

    O autor sugere que ao ler os textos bíblicos do AT chegavam a conclusões que os levava a acrescentar formas a cerimônias baseadas em alusões feitas a escritores bíblicos anteriores, dando evidência da forma atual das pessoas serem aceitas no reino de Deus.

    Um dos fatores que deu força a essa nova forma de aceitação no corpo de Cristo foi o progresso da doutrina do Deus trino e “a medida que a doutrina da Trindade ia sendo desenvolvida, a prática de batizar no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo passava mais e mais a ser entendida à luz dessa doutrina”. (ALISSON, 2107, p. 278), no caso, a luz da doutrina do batismo. Isso fez com que a igreja primitiva aceitasse amplamente a cerimônia batismal como sendo de importância para novos conversos, o próprio batismo de Jesus se torna uma evidência clara de que batizar era uma ordenança que devia ser adicionada ao corpo de doutrinas da igreja, portanto, Ele foi batizado. Cumpriu em Seu batismo um propósito definido, porque “em seu batismo no rio Jordão — recebeu Cristo, que veio de cima e desceu (sobre ele) na forma de uma pomba” (ALISSON, 2107, p. 279). Recebeu em sua humanidade o dom do Espírito Santo (At. 2.38). Foi por essa razão, que consentiu que João o batizasse mostrando, que assim como Ele, nós necessitamos passar pela experiência para que nosso ministério junto ao corpo da igreja possa ser endossado pelo mesmo Espírito. Concluímos que, não só temos evidências, mas  o próprio Jesus foi quem instituiu a cerimônia do batismo e Dederen confirma quando fala sobre sacramento,  dizendo ser ”cerimônia religiosa instituída por Jesus Cristo, como o batismo, o Lava-pés e a Ceia do Senhor” (DEDEREN, 2011, p. 27). Isso é manifesto na forma como aconteceu o evento de Seu batismo ”e, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele e eis que uma voz dos céus dizia: este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). Admitimos que, já existia uma forma de fazer parte do povo de Deus e era através  da circuncisão,  porém isso mudou, mas em que sentido? Dederen (2011)  diz que a circuncisão era tida como um sinal de pertencimento à comuni­dade judaica, substituída pelo batismo na igreja cristã. Nesses casos, o que foi alterado é a forma e não o significado, porém essa nova maneira de ingressar na igreja trouxe luz maior sobre o conceito de ser cristão para aqueles que aceitavam Jesus e essa luz ampliada ganha maior sentido vista da perspectiva de Paulo em Romanos 6.4 e de Dederen que diz: 

    “O rito do batismo é ministrado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esses três grandes poderes do Céu Se comprome­tem a ser a eficiência de todos quantos se submetem a essa ordenança e se mantêm fiel ao voto então prometido (MR6, 27)”  (DEDEREN, 2011, p. 202).

    Então, o batismo do mestre Jesus mostra que, além de ser o idealizador, foi também o exemplo perfeito para aqueles que desejam chegar a Ele.

    III. CIRCUNCISÃO E O BATISMO

    Como já mencionado, o batismo de certa forma substituiu a circuncisão praticada até então, porém o significado de ambos não foi alterado, porque ”todos quantos fariam parte da semente de Abraão descobriríam que Deus é seu Deus, e que eles são Seu povo. A circuncisão seria um sinal (Gn 17:11) desse correto e já existente relacionamento com Deus constituído pela fé (Gn 15:6; Rm 4:9-12)”. (DEDEREN, 2011. p.311). Assim se dá com o batismo onde o indivíduo é feito discípulo, é batizado numa apresentação pública diante da sua comunidade de crentes, em reconhecimento do seu novo relacionamento de fé com Deus. Uma coisa não vem antes da outra, porque para receber as bênçãos prometidas do céu é necessário aceitar de forma pessoal e racional os reclamos desse novo relacionamento, e para aqueles que podem, ser batizados nas águas, portanto  “aqueles que, pelo batismo, compro­meteram-se diante de Deus a exercer sua fé em Cristo e morrer para a velha vida de pecado, entraram numa relação de aliança com Deus” (DEDEREN, 2011, p. 202), o mesmo acontecia com a circuncisão que assim como o batismo era sinal de aliança com Ele. “Abraão foi declarado justo, não em virtude da circuncisão, mas em virtude da fé.” Justino Mártir, Dialoguewith Trypho, a Jew, 92, in: ANF, 1:245″. (ALLISON, 2017, p. 596), logo para ser justo diante de Deus não é a cerimônia que promove o milagre e sim a fé em Jesus, portanto circuncidar, como era no passado, ou batizar conforme praticado hoje, deve refletir a mudança que Deus operou anteriormente no coração. Ambas as cerimônias são colocadas como sinal exterior do que ocorreu no interior daquele que aceita viver uma vida com Deus, porém a circuncisão não existe mais porque foi substituída pelo batismo, sinal que trouxe ainda mais significado para todo aquele que ingressa pela fé na vida com o Filho de Deus, logo o batismo infantil praticado ainda hoje por algumas comunidades religiosas não faz muito sentido. Passaremos a analisar alguns argumentos apresentados para o estabelecimento dessa teologia, e como proposto a princípio, veremos quais argumentos Agostinha apresenta para validar esse pensamento.

    IV. O BATISMO DE CRIANÇAS

    O batismo de crianças recém-nascidas ganhou força na idade média e os pensadores da época tinha o seu modelo teológico que divergia em um ponto ou outro dos demais e  Agostinho desenvolveu o seu, ele diz:

    “atribuí aos desígnios ocultos de Deus ao terdes conhecimento do que acontece a crianças, as quais são portadoras do mal hereditário de Adão: enquanto umas são socorridas pelo batismo, outras não o são e morrem com essa mancha” (PATRÍSTICA VOL. 40, 1995, p. 45). 

    E diz mais: “é, portanto, certo dizer que as crianças que morrem sem batismo estarão na mais branda de todas as condenações”. (PATRÍSTICA VOL. 40, 1995, p. 45). Algo um tanto complicado de aceitar porque sua afirmação remete ao fato que tais crianças morrem sem esperança de salvação, ao contrário  White (2015) diz que os pais com  filhos e esses desejam ser batizados devem se atentar a alguns fatos. Ver se estão sendo um bom modelo e devem estar ensinando seriamente seus filhos, por ser o batismo uma cerimônia muito séria e sagrada, portanto, é importante entender o seu significado. Simboliza o arrependimento do pecado e uma nova vida em Cristo Jesus. Não deve haver precipitação neste ritual. Notamos que enquanto Agostinho apoia que deve haver batismo de crianças em tenra idade e que sem passarem pela cerimônia estão perdidas, White afirma que deve haver preparo dessas crianças, sugerindo que as mesmas devem tomar consciência dessa decisão,  jogando por terra o argumento de Agostinho. O próprio Jesus disse para deixar ir a ele os pequeninos e não os impeçais porque tais crianças desejavam, por si sós, chegar junto ao salvador, denotando um ato consciente da parte delas (Mt. 19.14). Não é mencionado uma única vez que Cristo tenha recebido crianças que ainda não tinham idade suficiente para entender a natureza do reino de Deus.

    Para Cipriano, em sua doutrina de batismo de recém nascidos, ”o batismo dos bebês é necessário, não porque os recém-nascidos tenham cometido qualquer pecado pessoal, mas porque herdaram o pecado e a morte do seu primeiro pai, Adão”. (ALISSON, 2017, p. 413) Seu pensamento entra em acordo com afirmação bíblica de Romanos 8.23 até o ponto em que todo recém-nascido herda o pecado original, ao que Paulo diz ”todos pecaram e carecem da glória de Deus” […] a morte passou a todos os homens porque todos pecaram” (Rm. 8.23, Rm 5.12). Agostinho aparentemente compartilhava da mesma ideia de pecado original, e também fundamentou sua teologia do batismo de infantes com base neste pensamento “ao sublinhar essa identidade comum entre Adão e a sua descendência, Agostinho desenvolveu seu argumento, já afirmado por seus predecessores, da solidariedade existente entre o primeiro homem e a humanidade como um todo.” (ALISSON, 2017, p. 418) Ele cria que todos os homens deveriam ser batizados em seu nascimento porque só assim estariam livres da condenação eterna e usou este argumento para provar sua posição, ele diz:  “[…] os seres humanos nascem e a condenação que — em virtude do pecado de Adão e da natureza herdada e corrompida que os leva a pecar sempre que agem — paira sobre todos os não batizados […]”. (ALLISON, 2017, p. 418), portanto é necessário que todos devessem ser batizados para enfim serem livres e desfrutarem das bênçãos que advêm dessa atitude, porém, no caso de Agostinho, os bebês  também, levadas por seus tutores, deviam ser batizados e para fundamentar sua posição usou por base Romanos 5.12.

    Dois argumentos ele propõe para realização do batismo de crianças, o primeiro tem de ver com a circuncisão e segundo com o pecado original que discutiremos logo a seguir. Sobre a circuncisão ele diz,

    ”E assim como em Isaac, que foi circuncidado no oitavo dia de seu nascimento, precedeu o sinal da justiça da fé e, porque imitou a fé de seu pai, veio em consequência a própria justiça, cujo sinal precedera na criança, assim nas crianças batizadas precede o sacramento da regeneração e, se mantiverem a piedade cristã, sobrevirá também a conversão em seu coração, cujo mistério precedeu no corpo” (PATRÍSTICA VOL. 42, 1995, p. 32).

    Ele coloca que por herdar de Adão o pecado original, “o batismo é necessário às crianças por causa do perdão do pecado original”  (PATRÍSTICA VOL. 42, 1995, p. 32), o que concorda com doutrina bíblica do pecado (Rm. 3.23), inclusive ele refuta alguns argumentos que dizem que o batismo deve ser ministrado a quem desse teologia, então ele conclui que por terem sido circuncidadas aos oito dias as crianças precisam ser batizadas assim que nascem, sendo que o batismo substituiu a circuncisão, um argumento plausível, porém que contradiz em sua essência o significado do batismo porque o batismo não torna cristãs as crianças, tampouco as converte; é apenas um sinal exterior que demonstra sentirem dever ser filhos de Deus, reconhecendo que creem em Jesus Cristo como seu Salvador e que daí por diante viverão para Ele.— Manuscrito 5, 1896″ (WHITE, 1954, p. 466-467). Note que a autora fala que tais crianças precisam reconhecer e crer, dando evidência de que tais já estão em idade suficiente para tomada dessa decisão. Jhon Piper também argumenta que “Se o Batismo fosse apenas um paralelo do rito do Antigo Testamento sobre a circuncisão não teria que acontecer pela fé, já que as crianças não recebiam a circuncisão pela fé” (PIPER, 2015, p.15), justamente por não terem condições de entender o seu significado, porem Agostinho acreditava que o batismo, além de sacramento, era essencial para entrada no reino de Deus, o que em parte recebe apoio das Escrituras e como visto anteriormente, aquele que  morresse sem estar batizado não seria salvo, logo, em sua perspectiva todos, adultos e crianças deviam ser batizadas (PATRÍSTICA VOL. 13, p. 09). 

    Há um porém, Agostinho também entendia que a fé vem antes do sacramento, veja seu argumento:

    “Portanto, assim como em Abraão precedeu a justiça da fé e aconteceu a circuncisão como sinal da justiça da fé, assim também em Cornélio precedeu a santificação espiritual no dom do Espírito Santo e aconteceu a santificação espiritual no dom do Espírito Santo, e veio depois o sacramento da regeneração no banho do batismo” (PATRÍSTICA VOL. 42, p. 31).

    Onde está então a discordância? O próprio argumento dele é usado para apoiar a ideia de batismo infantil, “para Agostinho, qualquer criança nascida no mundo estava contaminada com pecado, e o batismo era meio indispensável para resolver esse problema” (KELLY, 2015, p. 326-327), portanto, ele acreditava que por herdar de Adão o pecado original essas já nasciam em condenação, isso era motivo suficiente para que elas devessem ser batizadas, ao contrário de outros pensadores, como vimos anteriormente, que concordam que somente após certa idade e por escolha própria tais crianças poderiam passar pela cerimônia do batismo, como ele próprio afirma e determina,

    “A conclusão é que ou crianças precisam de salvação ou não entram no plano da salvação. No primeiro caso, não tendo pecados pessoais, têm o pecado original; no segundo, estão fora da salvação. Em todo caso, há o pecado que separa de Deus, e não existe reconciliação senão pelo único Mediador, de cuja morte e ressurreição se começa a fazer parte pelo batismo, que a Igreja desde muito cedo administrava às crianças” (PATRÍSTICA VOL. 40, p. 113).

    V. CONCLUSÃO

    Por fim, muito ainda se discute sobre natureza do batismo em seus vários aspectos, mas como procuramos esclarecer, não encontramos paralelo bíblico que apoie a doutrina do batismo de crianças recém-nascidas, mesmo que pensadores como Agostinho deem sua contribuição a favor, a hermenêutica bíblica desconstrói tais argumentações, pois não encontram nela apoio para se sustentar como uma doutrina válida. No Novo Testamento, por exemplo, não se vê nenhum comentário de seus escritores sobre o tema, embora o catolicismo moderno em seu catecismo argumenta que ”[…] é no entanto bem possível que, desde o princípio da pregação apostólica, quando «casas» inteiras receberam o Baptismo se tenham baptizado também as crianças” (LOYOLA, 2000, p. 394), um argumento plausível, mas que diante das referências bíblicas ou falta delas, mais se parece com uma dedução e segundo Piper (2107), até os dias dos pensadores da idade média, incluindo Agostinho, todos os batismos haviam sido batismos de crentes, não de bebês. A razão para não proceder dessa forma foi que o batismo é sinal de pertencer a nova aliança, constituída não por nascimento ou identidade étnica, mas, pelo arrependimento e fé em Jesus Cristo. 

    Referências:

    KELLY, J.N.D. Patrística: Origem e Desenvolvimento das Doutrinas da Fé Cristã. São Paulo – SP: Vida Nova, 2015. 

    Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edição típica Vaticana, Loyola,

    2000. 

    PATRÍSTICA VOL. 40, Santo A. O Castigo E O Perdão Dos Pecados E O Batismo Das Crianças. São Paulo – SP: Paulus, 1995. 

    PATRÍSTICA VOL. 42, Santo A. O Castigo E O Perdão Dos Pecados E O Batismo Das Crianças. São Paulo: Paulus, 1995.

    PIPER, John. Uma série de estudos sobre o batismo. Minneapolis: Desiring God Foundation, 2015.

    WHITE, Ellen G. Orientação da Criança. Tatuí SP: Casa Publicadora Brasileira, 1954. 

    PATRÍSTICA VOL. 13, Santo A. A graça II. São Paulo: Paulus, 1995. 

    ALISSON, Gregg R. Teologia histórica: uma introdução ao desenvolvimento da doutrina cristã. São Paulo: Vida Nova, 2017.

    DEDEREN, R. Tratado de Teologia. Tatuí SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

    ALMEIDA, João Ferreira de. Trad. A Bíblia Sagrada (revista e atualizada no Brasil) 2 ed. São Paulo. Sociedade Bíblica Brasileira, 1993.

    [mailpoet_form id=”1″]

Estamos quase lá!

🔥 CLIQUE PARA RECEBER O COMENTÁRIO EXPANDIDO!

  • Análise versículo por versículo
  • Contextos históricos exclusivos
  • Aplicações práticas para sua vida

⏳ Vagas limitadas - Garanta seu acesso gratuito!"

(Não fazemos SPAM, futuramente poderá sair de nossa lista)